quinta-feira, 28 de março de 2013

Noemas de Filosofia Portuguesa




Aperitivo Noemático

O livro Noemas de Filosofia Portuguesa chegou a ser publicado, em 2014, pela editora Fonte da Palavra. Entretanto, essa Editora já entrou em insolvência. Porém, com alguma sorte, ainda se poderá encontrar um ou outro exemplar nalguma livraria do País.

O livro chegou a ser igualmente publicado no Brasil, a cargo da editora É Realizações (ver aqui). De resto, deixamos ainda aqui os nossos agradecimentos a Olavo de Carvalho (ver aqui), desde logo por ter particularmente contribuído para uma tal iniciativa.

No mais, trata-se de um livro expressamente dedicado à memória de Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino. Ao primeiro na medida em que, fazendo das fraquezas forças, legou à cultura nacional-humana uma obra ímpar na qual se espelha a tradição aristotélica entretanto abolida por uma Universidade que nos últimos dois séculos preparou e consolidou o iluminismo, o positivismo e o socialismo. Ao segundo na justa medida em que, fiel a essa mesma tradição, fez valer o pensamento varão não só perante o «marxismo universitário» como ainda perante os agentes da política vil ao serviço de organizações internacionais apostadas no apagar da entidade espiritual que é a Pátria Portuguesa.

No plano mais imediato, o intuito é, por um lado, demonstrar como desde a centralização pombalina do poder estatal até à actualidade emerge toda uma mentalidade condicionada na esfera económica, cultural e ideológica. Uma tal demonstração pormenoriza, identifica e dá a conhecer o papel desempenhado pelos mais diversos institutos, fundações e organismos políticos na implementação de uma esmagadora quão poderosa engenharia colectivista nem sempre visível aos olhos de quem nela participa, age e intervém. Por outro lado, o intuito vai igualmente no sentido de demonstrar como a planificação económica, política e cultural em Portugal está hoje praticamente sob os auspícios do globalismo invasor.




Neste âmbito, será denunciada a Organização das Nações Unidas quanto à instauração de uma cultura unificada, porquanto preparadora da centralização económica, política e militar a nível planetário. Um tal processo passará inclusivamente pela demonstração de como todo o programa da dita disciplina de Filosofia encontra-se, entre nós, cabalmente dirigido pelo sociologismo tão internacionalista como abstracto da UNESCO. Gabinetes, centros, faculdades, ministérios, tudo joga e contribui a seu modo para consumar uma Nova Ordem Mundial que já condenou e deu por ultrapassado o princípio das nacionalidades.

Denunciado será também o facto incontornável de como a Universidade permanece incólume, ou até mais poderosa que a maçonaria e os partidos políticos. Na realidade, é dela que, inteiramente condicionados, saltam à vista o professorado, os políticos de profissão, os engenheiros do jornalismo jamais independente, assim como a assombrosa caterva de intelectuais à mercê do revisionismo histórico feito e talhado à imagem de uma esquerda ostensivamente ignorante, insana e contente de si. Por fim, serão ainda considerados temas maiores da filosofia portuguesa, mormente atinentes ao pensamento lógico e metafísico de Aristóteles.

 Miguel Bruno Duarte




Noemas de Filosofia Portuguesa (conteúdo):


Prefácio de João Seabra Botelho (ver aqui)

Prólogo

Parte I - Queda Vertical

Cap. 1 - A planificação do ensino em Portugal

Cap. 2 - A filosofia não é uma disciplina

Cap. 3 - Contra os universitários

Cap. 4 - A escola fixista

Cap. 5 - Oliveira Salazar e a Universidade pombalina

Cap. 6 - A índole heróica do povo português

Cap. 7 - A diplomacia dos interesses

Cap.  8 - A Universidade vencida pelo Espírito

Cap. 9 - A doutrina da liberdade de Orlando Vitorino

Cap. 10 - Ainda existe Portugal?





Parte II - Esperança

Cap. 11 - Pinharanda Gomes e os Conimbricenses

Cap. 12 - Álvaro Ribeiro e o Organon de Aristóteles

Cap. 13 - Os filósofos portuenses e o realismo de Aristóteles

Cap. 14 - De Montargil a Estremoz

Cap. 15 - O Papa Português

Cap. 16 - O taumaturgo ibérico

Cap. 17 - A epóptica no Abade Faria

Cap. 18 - Carta de Álvaro Ribeiro para Henrique Veiga de Macedo (inédito).



Prólogo

Por noema entendemos a expressão lógica e intuitiva da plenitude do Espírito. E cabe agora, por virtude do noema, considerarmos um povo que tudo praticamente perdeu em termos históricos e patrimoniais. De resto, já Orlando Vitorino deixara entrever o fim histórico de um povo na revista Escola Formal, fundada após a revolução comunista de 1974. Tratava-se, pois, de uma revista que procurava salvaguardar o princípio da liberdade mostrando aos portugueses que o totalitarismo que então se fazia sentir era o maior perigo que enfrentavam.




Ontem como hoje, não obstante as constantes alterações de ordem técnica e político-económica, tudo permanece praticamente inabalável. Isto é: permanecem as mesmas hierarquias, as mesmas famílias, o mesmo estatismo poderosamente controlador da vida pública e privada, um sistema eleitoral que, manipulado pelos partidos políticos, esmaga, na mais profunda injustiça, toda a existência individual e colectiva de um povo, enfim, um esquerdismo instalado em todos os sectores públicos e privados de natureza económica, cultural e política.

No fundo, tudo se passando sob a acção corrosiva do socialismo que, além de formalmente democrático, quer agora obrigar os portugueses a adoptar o modelo industrial que a Europa Nórdica tem imposto ao mundo, mais particularmente à Europa do Sul. E tudo levado ao extremo em nome da liberdade e do progresso científico. Uma organização, portanto, totalitária, apoiada na demagogia de um tacanho socialismo feito para as massas, e a que não é estranha uma estrutura censória sem rosto.

Ninguém, no pleno exercício da razão, pode julgar-se à margem deste processo. Quando muito, pode dizer que procurou evitar, do ponto de vista espiritual, o peso esmagador de uma sociedade totalitária que nega e proíbe a livre existência dos seres individuados. Absorvidos pela comunidade que, segundo o marxismo, se define como um «ser genérico», a sua existência não passa de uma ilusão, ou até mesmo de um vazio em que os indivíduos propriamente ditos dão lugar a uma colecção ou a uma colectividade puramente genérica.

Deste modo, no que à economia e à política respeita, ninguém - excepto os poderosos do mundo - pode ficar à margem dos efeitos dramáticos do presente totalitarismo. Mas em termos espirituais tudo é possível, sobretudo quando se tem a felicidade de descobrir a filosofia portuguesa. E o autor destas linhas pôde, efectivamente, descobri-la por laços que o destino estabelecera em termos geográficos, que mais diríamos de oportuna vizinhança. Numa palavra: Miraflores.

Sabemos que Álvaro Ribeiro, durante o decénio de 1970, vinha a Miraflores. Sabemos também que com ele, ou a par dele, vinham algumas personalidades da filosofia portuguesa, tais como Afonso Botelho, Orlando Vitorino, António Telmo, Pinharanda Gomes, entre outros. O que, aliás, se tornara possível graças a Luís Furtado, um dos discípulos do filósofo portuense, que punha a sua casa à disposição dos mestres de portugalidade.

Não cheguei a conhecer pessoalmente Álvaro Ribeiro, pois estava a percorrer, nessa altura, os primeiros anos de vida. Mas conheci, felizmente, Luís Furtado, alguns anos mais tarde. Mais: conheci-o, não sob a consciência directa e manifesta do que fosse a filosofia portuguesa, mas sob o encanto que o esoterismo exercia sobre quem passava então pela fase da adolescência.




Doravante, a regra de ouro, por nós adoptada, seria a de que o esoterismo, superiormente considerado, estava para o pensamento filosófico tal como, numa época remota, o mito estivera para a tragédia grega. Surgira assim, numa primeira fase, a teosofia através de autores como Eduard Schuré, Madame Blavatsky, A. P. Sinnet, P. D. Ouspensky, Rudolf Steiner, logo seguidos, numa outra linha, por René Guénon, Julius Evola, Titus Burckhardt, Frithjof Schuon, Gershom Scholem, outros mais. Tudo se passando, diríamos, no decorrer de um ritmo que ia, a pouco e pouco, convergindo com as obras de Ravaisson, Boutroux, Hamelin e Bergson, ou seja, aquelas mesmas obras que, havendo já influenciado, por via leonardina, o pensamento de quem frequentara a Faculdade de Letras do Porto, chegava agora até nós por intermédio de quem, por sua vez, as recebera do mestre dos que sabem. Em suma: de Álvaro Ribeiro a Luís Furtado, e deste até nós, assim se cumprindo a transmissão esotérica de uma tradição filosófica que se vai perpetuando sob a inspiração da obra lógica e metafísica de Aristóteles.

Porém, a consciência de que assim fora, só mais tarde a tivera, sobretudo no que a Álvaro Ribeiro respeita. Para dizer a verdade, o meu percurso iniciático, desde o esoterismo ao aristotelismo, tivera por base, ainda antes de conhecer Luís Furtado, as artes marciais (ver aqui) com todo o orientalismo inerente (ver aqui). O encontro, portanto, com o pensamento alvarino viria sob a forma de uma coincidência, entendida num sentido bastante próximo do que Deepak Chopra, em As Sete Leis da Realização Espiritual, designou por sincrodestino.

Por conseguinte, duas personalidades levaram-me, por via indirecta, a esse encontro: Orlando Vitorino e António Quadros. O primeiro através do seu prefácio ao Ensaio sobre a Liberdade, de Stuart Mill, o segundo através da inacabada obra Portugal, Razão e Mistério.

Das duas personalidades acima referidas, a que mais me marcou espiritualmente foi, sem dúvida, Orlando Vitorino. Em primeiro lugar, por ter referido, naquele prefácio, a existência da filosofia portuguesa; depois, por ter, no mesmo prefácio, chamado a minha atenção para José Régio, nomeadamente para a distinção que o Poeta do Mistério da Encarnação, com «o cuidado e a segurança que lhe são peculiares», fizera sobre os nossos maiores «escritores de ideias», a saber: António Sérgio, Oliveira Salazar, José Marinho e Álvaro Ribeiro.

De facto, pude assim aceder ao pensamento de Oliveira Salazar e de Álvaro Ribeiro, sem jamais, com isso, desvalorizar os demais. Resultado: um novo mundo nascera, um mundo que sempre estivera comigo até ao momento em que despertou e ganhou forma: o mundo português. Um mundo, portanto, de claras e manifestas diferenças no ser, no sentir e no pensar, como as que podemos encontrar entre Oliveira Salazar e Álvaro Ribeiro, quer ideológica quer espiritualmente.




Mas há sempre quem me veja apostado em solidarizar a filosofia portuguesa com o salazarismo, como, aliás, já Eduardo Lourenço, no pós-25 de Abril, já, de sua lavra, preconizara nas páginas em branco de O Labirinto da Saudade. E como também o fizera Prado Coelho ao apontar António Quadros como anticomunista aos facínoras do então neo-totalitarismo gonçalvista. Desenganem-se, porém, os obstinados e os fanáticos da agressão ideológica, pois o que mais importa é o pensamento em prol do direito e da existência do povo português.

Ademais, assim também pensara António Quadros nos seus textos de intervenção reunidos em A Arte de Continuar Português, posto que neles se dá a conhecer o antiportuguesismo dos intelectuais e universitários da nossa praça, de que dão, aliás, confrangedor testemunho os artigos de João Medina nos seguintes termos: «somos poucos, somos muito pouco, somos quase nada, somos nada» ou «somos um povo sem pensamento». E textos que, em abono da verdade, mantêm ainda a sua actualidade em aspectos tão amplos como o da União Ibérica, que fora já perfilhada, num passado recente, pela visão fatalista e derrotista de Oliveira Marques.

Todavia, a origem deste processo, revelado por Orlando Vitorino no já referido prefácio à obra de Stuart Mill, só se compreende mediante a idiossincrasia e o condicionalismo social que fazem dos nossos escritores uma classe pronta a reflectir toda a espécie de preconceitos. E preconceitos com seus efeitos negativos na literatura e na cultura genericamente considerada, se para tal verificarmos que quase todos os escritores são recrutados na pequena e média burguesia, ou, se quisermos, na classe média. Os tais escritores, portanto, que passam a exprimir «o pavor pela vida de pobreza e miséria do proletariado», bem como «a repugnância pelos consequentes costumes e moralidade». Ou ainda os tais escritores que iludem ou sublimam, a par da sua formação universitária - já de si reduzida a uma actividade formalista, superficial e repetidora -, os degradantes processos por demais conhecidos da produção cultural, e, como tal, dominados por um falso socialismo «denunciador de todas as injustiças sociais».

«Nada, pois, – no dizer de Orlando Vitorino – mais apto, na origem e na formação, ao domínio dos preconceitos e dos formalismos. Nada pois mais fácil do que verificar a observação, atribuída a António Sérgio, de que “em Portugal a classe mais estúpida é a dos intelectuais”». Nada, enfim, mais pertinente do que o livro que ora apresentamos para assim confirmar o que a maioria teima em reconhecer.

Orlando Vitorino

Neste livro, também decidimos incluir alguns artigos já publicados na revista Teoremas de Filosofia, fundada e dirigida por Joaquim Domingues. Em todo o caso, alguns desses artigos surgem aqui alterados, quando não mesmo acrescidos de novos conceitos e ideias. No seu conjunto, tratar-se-á sobretudo de uma reflexão sobre Portugal, que pretendemos ver o mais actualizada possível, ainda que contra ventos e marés nada favoráveis ao talent de bien faire.

Ventos e marés particularmente presentes numa historiografia de pendor positivista e marxista, em que figuras como o Marquês de Pombal continuam a ser interpretadas nos termos de uma grandiosidade que nunca tiveram, ou sequer mesmo personificaram. Logo, como haveremos de encarar as afirmações de Joaquim Veríssimo Serrão no contexto da sua biografia sobre O Marquês de Pombal?: «Longe de se idolatrar “o governante excepcional” ou de se amarrar ao pelourinho o “tirano brutal”, impõe-se ao historiador do nosso tempo encarar um homem, como o Marquês de Pombal, pela grandeza e durabilidade da sua obra ao serviço da Nação». E mais adiante, nas palavras com que praticamente encerra o prefácio do seu livro: «O Marquês de Pombal há-de ficar como um dos 5 ou 6 estadistas de craveira superior que ao longo de 800 anos orientaram os destinos de Portugal». Como encarar, pois, tais afirmações? Simplesmente dizendo que a história, ocupando um lugar preponderante no establishment universitário, carece dos princípios e das bases teóricas que só a reflexão filosófica lhe pode dar.

Por outras palavras, o que se pretende dizer é que a história, para não cair no juízo sem conceito, ou até no espírito de glorificação, como as duas últimas passagens acabaram de mostrar, carece do pensamento sem o qual toda a narrativa não passa de uma sucessão de factos ou acontecimentos no domínio do contingente, ou do simplesmente arbitrário. Resumindo: carece do que, transcendendo a multiplicidade dos factos reunidos, documentados, comparados e observados, surge como manifestação e desenvolvimento do Espírito no tempo.

Ora, com o Marquês de Pombal uma coisa é certa: a filosofia é para ser abolida. Por isso, irrisória queda toda a historiografia que, por via universitária, cresce a olhos vistos, incluindo aquela que alega situar-se entre os extremos, isto é, entre os pombalinos e os antipombalinos. Aliás, tal foi o que já pudemos comprovar num autor conceituado como Veríssimo Serrão, e que ganha forma actual através de autores como José Eduardo Franco e Annabela Rita, como se pode observar no livro que, em co-autoria, deram a lume sob o título de O Mito do Marquês de Pombal.




Neste último caso, também não passa despercebido o peso que o positivismo continua a ter entre nós, não obstante, no livro em questão, haver da parte dos autores o intuito, nalguns pontos acertado, de desmistificar alguns aspectos relacionados com o confronto ideológico criado à volta de Pombal. Assim, temos, por um lado, a mitificação maçónica de um déspota que muitos quiseram ver erguido, aquando das comemorações do seu primeiro centenário (1882), em paladino da liberdade e da democracia. E temos, por outro, a par de certos sectores católicos, a reacção contrária protagonizada por Camilo Castelo Branco, mais particularmente no seu Perfil do Marquês de Pombal, em que põe a nu, de uma forma literária e singularmente genial, a instrumentalização dos festejos pombalinos como o feito mais escandaloso que a democracia oitocentista poderia alguma vez produzir. E muito bem, na medida em que grande parte da história construída à volta de Pombal é uma das maiores falsificações imposta por intelectuais e historiadores de arreigada pretensão científica.

Da nossa parte, imunes ao contágio da Universidade, e por conseguinte inteiramente livres para pensar e transcender a história positivista, propomo-nos aqui demonstrar até que ponto as estruturas económicas, políticas e culturais da actualidade continuam a ser as que herdámos do «Nero Português». Uma demonstração que, de resto, dista profundamente de tudo o que vai emergindo na linha eventualmente historicista de um Miguel Real, para quem, no livro intitulado O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa, a Universidade, sendo o que dela fizeram os Estatutos de 1772, deixou de o ser, sem mais, a partir do 25 de Abril. Mas, estando nós particularmente atentos ao que desde então se passa em Portugal, e sabendo o que a maioria bem-pensante não quer, não sabe e não pode ver, resta apenas dizer que o pensamento, perante os frágeis alicerces de uma historicidade passadista, afirma o que as coisas são para, em última instância, as transcender como movimento espiritual que é. Em suma: o pensamento é movimento, ou melhor ainda, o pensamento é o movente.

Agora, esclarecido o leitor, vamos, finalmente, ao que mais importa.